Foi sentado no meio-fio, com a bunda na calçada, que a conversa começou: “Brôu, é o seguinte. Teus últimos textos estão muito ruins. Já conversamos antes, mas parece que você não entendeu ou está se fazendo de sonso. Do tipo que pode ir levando desse jeito. Você precisa escolher. Precisa organizar sua dinâmica de trabalho. Tem muita gente boa querendo escrever para a revista e tenho deixado esses caras de fora para te dar uma chance. Mas, não está dando mais e já estamos no limite. Na boa, já era para eu ter te limado há algum tempo. Tuas últimas matérias foram as mais fracas da revista. Não sou seu professor e nem quero me meter na sua vida pessoal. Estou falando porque isso afeta o meu trabalho”, disparou Olavo, enquanto acendia um cigarro retirado de uma embalagem azul, da qual não me recordo o nome.
Eu não conseguia encará-lo. Sabia bem das minhas deficiências. Nunca pensei em justificá-las. Aliás, eu aceito bem as críticas e procuro sempre avaliar se, de fato, elas estão certas e se tenho escorregado. Mas naquele momento eu senti uma imensa vontade de dizer que eu simplesmente não era capaz. Não era capaz de escrever melhor, de pensar melhor, de viver melhor. Minha vida tem sido minha cela. Que por mais que eu queria de todo o coração ser um profissional muito melhor e ter perspicácia, conhecimentos sólidos e humor gelado para agüentar a pressão, eu não conseguia. Sou todo passional. Imerso numa cultura urbana de classe média baixa da zona leste de São Paulo, cheio de tabus e de limites para a minha alma e desejos.
Olavo prosseguiu, sem me dar chance de defesa: “Parece que você é ingênuo, malandro. Os caras falam e você transcreve. Nisso você serve a interesses de gente no mínimo duvidosa. Falta apertar os caras. Parece que você ouve e aceita tudo o que te dizem. Que só eles falam. Quando leio sua matéria, me pergunto: e aí? Reportagem dá trabalho. Não pode deixar para última hora, para a última semana”.
Apesar dos palavrões que recheavam nossa conversa, era como se fosse um conselho paternal. Eu sabia bem que ele não precisaria gastar trinta minutos comigo sentado na calçada, em plena avenida Nove de Julho. Não precisava pagar aquele mico. Era só me mandar a merda. Me despachar lá da sala refrigerada onde trabalha. Ou então, como já aconteceu antes em outras revistas, deixar de responder as minhas inúmeras sugestões de pautas. Eu sabia que de alguma maneira ele se importava comigo e queria o meu bem. E isso é o pior. Eu não queria decepcioná-lo. Isso me sangrava a alma. Eu queria deixá-lo orgulhoso por ter apostado em mim. Queria que minha próxima matéria fosse a capa da revista, algo que nunca consegui naquela publicação, diferente de todas as outras onde trabalhei e trabalho.
Olavo parecia ver a minha alma. E alfinetava cada ponto fraco que eu tinha. “Muita coisa é tarimba. É tempo. Mas, malandro, você já tem alguma rodagem. Não dá para ser ingênuo assim. Tem uns caras muito mais novos que você na revista e que já demonstram muito mais habilidade”.
Lembrei de quantas vezes eu fiz isso com outras pessoas. Olhar nos pontos fracos e espezinhar. Pisar e repisar como quem esmaga uma unha encravada. Selecionar as palavras mais duras, mais secas, mais agudas. Olavo sabia bem usar as palavras. Eu entendi isso.
O recado era claro e com os meus bons ouvidos traduzi: Ele gosta de mim, mas não me queria do mesmo jeito. Ou melhoro ou pego a estrada.
São por estas (e outras) que decidi que, sobre mim, só Deus mandando e desmandando. Não que não tenha entendido o paternalismo explicito do camarada, mas que é bem cansativo ter que ficar “se provando” todo o tempo, ah isto é…
Mas eu discordo dele e sempre vou discordar. Aquele ponto de vista é o de alguém que precisa vender, e não de quem sabe apreciar o que é bom. Quando se precisa tratar daquilo que é comercial, daquilo que vende, abre-se mão do que é artístico e belo. Van Gogh que o diga!
O fato é que nenhum editor do mundo vai compreender – nunca – o belo, o interessante e o que realmente importa. As sifras estarão sempre em sua cabeça, se não por conta deles mesmos, por conta de seus chefes.
Nunca deixe que te digam que você não presta. Nas palavras de Eleanor Roosevel: “Ninguém pode te fazer sentir inferior sem o seu consentimento.” Somos MUITO melhores que palavrões, cigarros e bundas na calçada! Acredite.
De vez em qdo um puxão de orelha faz a gente acordar para a realidade da vida.Ficamos no momento da bronca um pouco triste, magoado, mas depois paramos para refletir e vemos que realmente a bronca serviu para nos acordar para a vida, para a luta diaria.Não podemos nos acomodar por alguns problemas que surgem nesta nossa estrada da vida, e eu sei que vc tem uma estrada muita longa adiante, vc é uma pessoa muito capaz, inteligente, esforçado e tenho certeza que com essa bronca do seu amigo, vc conseguira melhorar muito mais ainda, vc já é bom, mas vai ficar muito melhor. Tenho certeza.