Uma boa pessoa para se parecer

Eu não conheço Fábio Jammal. Mas, desde que cheguei ao meu novo trabalho, todos – sim, sem exceção, todos – dizem que sou muito parecido com ele, que também era jornalista e trabalhava na mesma secretária de imprensa onde estou.

Fico aborrecido quando escuto isso. A razão é porque gosto tanto de mim que não me imagino parecido com ninguém. Só que foi aí que escutei um dos elogios mais bonitos na vida: “Jammal é uma boa pessoa para se parecer.”

O jornalista em questão, até onde sei, não professava nenhuma religião, não era voluntário  em grandes causa humanistas ou ambientais. Muito menos galã. Dizem que era uma pessoa expansiva, ria alto, gostava de contar piadas – principalmente na mesa do bar – e tinha um grande coração.

“Era uma pessoa do bem”, disseram uns. Outros falaram “alguém que não tinha como não gostar”.

Jammal deixou amigos no seu antigo trabalho e, quando olham para mim, lembram do outro colega das risadas longas e ruidosas e conversas volumosas.

E eu, mesmo não gostando de ser chamado por outro nome, me aconchego nessas lembranças que as pessoas nutrem. Afinal, é bom ser parecido com alguém que soube cultivar amigos, que deixou um rastro de saudade e boas histórias para contar.  Espero seguir pelo mesmo caminho de amizades sinceras.

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Cartas de despedidas

Meu filho mais velho, Gui, precisou mudar de escola no meio do ano, enquanto ainda cursava a segunda série. Eu, que detesto despedidas, sofri pelo meu pequeno. “Pegue o telefone de todo mundo. Vamos visitá-los nos fins de semana”, tentei incentivá-lo. E ele foi, mochila nas costas, pronto para mais um “até breve”.

 

Não seria a primeira mudança nos seus sete anos de vida. Certa vez tivemos que mudar de bairro. Ele frequentava uma escolinha desde os três anos de idade. Mas com cinco teve que deixá-la. Nos dias seguintes reclamava a saudade que sentia dos amigos. Às vezes uma lágrima insistia em pular dos olhos. Combinamos então de levá-lo numa festa junina, onde poderia rever todos os seus coleguinhas. O dia chegou e fomos até o clube onde bandeirinhas e bambus decoravam a entrada. Logo que ele entrou no salão e reviu os amigos, correu na direção deles, abraçou-os e chorou. Como chorou. Um choro de saudade engasgado no seu pequeno e frágil peito. E todos, naquela festa, choramos juntos.

 

Agora a cena se repete. Fui buscá-lo no seu último dia de aula na escola. Mas ao invés de encontrar um menino triste, encontrei-o feliz. Com um pacote de cartinhas de seus amigos. “Quase todo mundo na classe quis fazer um desenho para mim”, me contou.

 

Em casa espalhamos os papéis sobre a mesa. “Vou sentir saudades de você, Guilherme. Te amo”. “Não queria que você fosse embora”, “Vou ficar triste”, “vamos brincar de pega-pega-corrente”entre outras mensagens com desenhos coloridos de sol, casa, amigos no futebol, prédios e até um solzinho triste. “Vou guardar isso para sempre”, me disse, ao mesmo tempo me enchendo de perguntas se eu tinha saudades dos meus antigos amiguinhos. “Eu tenho, filho. Muita saudade”, respondi.

 

As crianças tem uma capacidade enorme de serem diretas. De falarem o que pensam e declarar o amor e a amizade. Parece ser um sentimento que não pode ser domesticado. Com o passar dos anos a gente aprende a habilidade de domesticar os sentimentos. Não confiamos para não nos decepcionarmos depois. Não amamos simplesmente porque acreditamos que o outro não mereça e passamos a selecionar com quem “brincar”. Queremos estar com os mais fortes, mais espertos, mais bem sucedidos. Nosso cérebro vira uma calculadora de emoções sempre pronta a nos mostrar as amizades mais “vantajosas”.

 

Por outro lado, a alma continua teimosa. Se ressente pela ausência daquele carinho infantil e desinteressado. Do pega-a-pega, do futebol e do esconde-esconde. E nessa frenética briga, às vezes escapa a criança aprisionada dentro de mim. E me dá uma vontade imensa de dizer aos meus amigos (dos cinco até os anos atuais) que os amo. De dizer a minha família que a amo muito. De beijar meus pais, filhos, esposa, tios, primos e irmãos. De escrever uma cartinha e desenhá-la com paisagens de barquinhos, sol, árvores, um cachorro, uma pipa, uma bola e muita gente. De colorir tudo e dobrar cuidadosamente. Viver pode ser bem melhor se tivermos o coração de uma criança.

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Vergonha

O dicionário Aurélio diz que significa desonra humilhante, opróbrio, ignomínia, sentimento penoso de desonra, humilhação ou rebaixamento diante de outrem. Pode ser também um sentimento de insegurança provocado pelo medo do ridículo, por escrúpulos.

“Caim, onde está seu irmão?”, teria perguntado Deus, segundo a narrativa bíblica no livro de Gênesis. A resposta agressiva, como quem buscasse palavras no ar, como se fosse possível afastar a nuvem de culpa, a própria consciência: Por acaso sou eu guardador do meu irmão?

Vergonha pode ser estar exposto diante de uma plateia exibindo suas falhas – sejam físicas ou intelectuais- ou mesmo quando você é desmascarado nos seus reais sentimentos. Quando um amigo lhe encara e pergunta: você quer me trair?

E você, não querendo, mas já traindo,tenta encontrar justificativas para afastar o que é evidente. Tergiversa para não dizer que traiu. Mente para não “perder” e perde mais e mais a cada mentira.

A vergonha pode levar ao suicídio. A morte das relações. É mais fácil fugir, sabe se lá como e para onde, do que penar ao admitir uma mácula no caráter, uma tamanha fragilidade. Perceber-se um farsante pode ser um golpe duro. Ainda mais quando se sabe que do outro lado há uma pessoa fiel, boa de coração e amiga.

Aprendi com um amigo – ele não sabe, mas foi um amigo ao me contar sua história – que é preciso se olhar no espelho, segurar o rosto bem firme com as duas mãos e dar pequenos tapas seguido da pergunta: tem vergonha na cara? Se tem, tá bom!

Essa minha oração: “Deus, olhe no fundo dos meus olhos. Dê pequenos tapas no meu rosto e não me deixe perder a vergonha na cara”.

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Uma nova geração

Eu acredito nessa nova geração da Internet. Na geração dos “nativos digitais”, que portam seus i-phones, que twittam sem parar, que escrevem nos seus blogs. Acho que eles podem salvar o mundo.

É gente usando all star e jeans surrados. Gente preocupada com a saúde, que prefere as bicicletas e transporte público aos carros particulares. Gente que deixa seu cabelo crespo crescer e tem orgulho dele assim. Gente colorida. Eu acredito nessas pessoas.

De uns tempos para cá essa onda atingiu também a igreja evangélica. Graças ao pioneirismo de tantas pessoas. De bons exemplos, como dos Vencedores Por Cristo, que saiam por aí falando da Beleza, Arte e Evangelho. De pregadores como Ariovaldo Ramos, usando o púlpito para falar de cidadania e justiça. Do respeito pelas diferenças. Tudo isso me deixa otimista.

A moçada que passou a infância ouvindo alguns desses desbravadores da fé cresceu. Agora querem escrever sua própria história. Falam de sustentabilidade, de ética, de compromisso social. Não precisam da cara e corrupta programação da televisão. Usam as mídias sociais. São conectados e engajados. Transpiram amor. Leem compulsivamente.

Eu acredito demais nessa gente colorida. Que fala de sustentabilidade. Que faz saraus. Que falam de Chico e de Cristo. Que dão “glória a Deus” ao ouvir U2 ou Paulinho da Viola.

Aurora dos novos tempos.  Eu, com meus 32 anos, sinto que por pouco não peguei esse trem. Mas muitos queridos amigos estão nele.

Depois de uma juventude adormecida dos anos 90, essa geração do século 21 parece apontar suas guitarras e blogs para reivindicar uma vida em abundância. Àquela prometida nas Escrituras. Não uma vida endinherada, mas uma vida feliz. Onde o amor seja o bem mais desejado. Onde todos os avós possam reunir seus filhos e netos em casa; onde todos os pais tenham direito de brincar de futebol com seus filhos nos parques, onde todos os jovens tenham acesso ao conhecimento e segurança. Onde todos tenham o direito de sonhar.

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Sobre realejos e Toddynhos

É até estranho quando, de um momento para outro, as coisas começam a ficar muito bem. Crises desaparecem, a conta fica no azul, o carro é trocado, os projetos e planos começam a se desengavetar. Tudo, repentinamente. Como num passe de mágica. Como se Deus deixasse seu pote de bênçãos destampado por mais tempo sobre mim – não sei se por esquecimento, ou de forma deliberada.

É estranho e assustador. De qualquer forma, tento curtir esses bons ventos. Mas, como sou inquieto, não consigo sorver toda sua plenitude. Penso nas pessoas ao meu redor e que não estão tendo a mesma sorte. Penso que nem sempre mereço a recompensa que me é dada.

Num programa do CQC, no quadro TOP Five (aquele que mostra os vídeos mais esdrúxulos da semana), uma jornalista contava como “se descobriu” para a profissão. Ela dizia que estava tomando seu matinal, quando leu no verso da caixa do Toddynho a palavra “JORNALISMO”.  Contou que, naquele momento, percebeu que se tratava de um recado celestial. “É assim que Deus age. É coisa de Deus”, ratificou sua interlocutora.

Os peraltas apresentadores do programa CQC logo começaram com as brincadeiras. “Imagine a falta do que fazer de Deus para perder tempo mandando recados através da caixa do Toddynho” outro emendou: “Deus não pode falar com as crianças do Timor Leste porque elas não tomam Toddynho”.

Meu medo é pensar, de verdade, que Deus irá me fazer tomar uma decisão tão importante, como a escolha de uma profissão, escrevendo recados atrás dos achocolatados. É por isso que reluto em dizer que as boas fases da vida são respostas das minhas orações. E, como explicar as más fases, as crises, a dúvida e o medo?

Peço a Deus que me dê lucidez. Que as escolhas na vida sejam responsáveis, e não uma brincadeira de “caixa de promessas bíblicas”, um realejo ou mesmo previsões do Polvo Pool.  Isso não elimina minhas orações. Não elimina o “lançar sobre Ele (Deus) todas as minhas ansiedades”, como diz a bíblia. Mas elimina uma maligna ideia de que gozo de uma predileção divina.

Creio que sou apenas um filho; mais um nesse mundão grande e cheio de fronteiras, repleto de gente confusa, maluca, boa e ruim. Não tenho vantagens competitivas por ser amigo de Deus. Por escolher seguir a Jesus Cristo. Por ter na vida de Cristo meu exemplo e ideal.

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Eu vi no seu Orkut…

Um amigo me ligou e disse que terminou seu casamento (na verdade, não era um casamento) e explica que um dos motivos foi que sua companheira publicou no Orkut que estava solteira. Já outro usou o mesmo site de relacionamentos para anunciar que o pai havia falecido. São dois casos esquisitos. As redes de relacionamentos ocupam cada vez mais importância na vida da gente. Outro dia li que uma mulher tuitava enquanto seu filho era atendido por paramédicos após ter se afogado. O menino, de dois anos, morreu.

Há quem se ocupe o dia inteiro na Internet. E os resultados, pelo que parecem, não são bons. Isolamento social, sedentarismo, falta de uma leitura de qualidade. Ao mesmo tempo que o dinamismo das redes sociais nos apresenta um novo mundo, é preciso um pouco de cuidado para não se perder no universo de informações da teia mundial de computadores. Eu mesmo sou vítima do furor das correntezas da Internet. Quando me percebo, deixei um site para outro. Li comentários em fotos postadas em álbuns de amigos. Teci conclusões, das mais loucas e precipitadas, sobre assuntos que vão de culinária a relacionamentos afetivos. Enfim, me percebo como aquela velha vizinha pendurada na janela pronta a captar as novidades da rua. Com a diferença de que minha janela é bem mais indiscreta e ampla. Através dela espio a vida do vizinho do prédio e também do filho do patrão. Depois uso meus mecanismos mais primatas, meu perfil ciberfofoqueiro, e repasso a informação, seja pela rede de computadores ou ao pé do ouvido mesmo.

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Uma lauda por dia

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Lembrei de uma orientação dada por um professor meu, durante a faculdade. Ele dizia que um jornalista era obrigado a escrever, no mínimo, uma lauda por dia. Se dividir tudo o que escrevo no mês, certamente ultrapasso duas laudas diárias. Mas, nem todos os dias digito alguma coisa. A preguiça, cansaço ou outras ocupações são minhas justificativas. Pois bem. Começo agora um exercício que pretendo cumprir junto com as seguintes metas: 10 páginas de livro e 100 abdominais diárias além de três caminhadas por semana. Será que dou conta?

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