Crianças invisíveis

 

Crianças brincam com a coordenadora do São Paulo Protege, Cibele.

Crianças brincam com a coordenadora do São Paulo Protege, Cibele.

Mateus é um menino curioso. Tem 11 anos e é conhecido como alemão, por conta de seus cabelos loiros e sua pele clara. Gosta de conversar, brincar e contar piadas. Luana é vaidosa, usa batom, brinco e diz ter 16 anos, mas aparenta uns 13. Gosta de tirar fotos. Uelinton., 11, é tímido e calado, mas gosta de brincar de pega-pega e polícia e ladrão com seu amigo Felipe, de 13, bigode pronto a nascer e sorriso que brota no canto do rosto.

Luana tem nas mãos fotografias. Diz que um homem sempre a procura por lá para tirar fotos suas. Em troca, a deixa ficar com algumas chapas, onde ela aparece sorrindo e em poses erotizadas. “É muito comum esses relatos”, conta o educador social João Santos, que trabalha para o programa municipal São Paulo Protege, em troca de um salário mensal de cerca de 700 reais. Antes ele era motoboy. 

Todas estas crianças moram juntos. Quando faz muito calor, ficam deitados olhando o movimento dos carros, quando chove ou faz frio, procuram se aquecer deitados debaixo de um mesmo cobertor e apreciando a paisagem da janela de “casa”, que na verdade é um chão de terra coberto com um tecido maltrapilho sob um viaduto na região do Vale do Anhangabaú, no centro da cidade de São Paulo. São crianças que dormem na rua, num cenário de total vulnerabilidade.  

Estima-se que numa cidade como São Paulo, quase duas mil crianças e adolescentes passem o dia nas ruas. Dessas, uma em cada dez dorme nas calçadas, sob viadutos, praças e nos mocós, uma moradia improvisada, como casas abandonadas ou buraco sob viadutos, onde convivem com ratos, baratas e toda a sorte de violência. 

 

Felipe vivia também nas ruas. Hoje mora num abrigo provisório. Só aceitou ir para lá após deixarem que Bob, seu cão, o acompanhesse. “O Bob é a única família de Felipe, que mora desde os 7 anos na praça Roosevelt. Ele é orfão de pai e mãe”, conta a coordenadora do Abrigo, Marilia de Almeida.

 

Estas crianças são invisíveis, cinzas como a cor do asfalto e das calçadas, mas estes meninos e meninas tingiram minha vida com cores que eu jamais conheci. Como podemos viver anestesiados diante de um quadro tão bizarro? Ou é comum que crianças vivam nas ruas, alimentando-se de cola e acordando com as botinadas do Estado?

 

(Esta matéria será escrita para a revista Problemas Brasileiros, mas deixo um pouco da minha indiganção postada aqui).

 

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s